De leve me fitei como pena, abstraindo meus indesejáveis pensamentos sobre a pessoas e seus monopólios. Tive que me fazer assim mesmo, como andam vendo por ai. E eu garanto que não existe mais o brilho nos olhos, nem o ar juvenil que me cercava há alguns anos. Me resta essa vontade boba de seguir adiante, de me prender aos acasos e as ideias (muitas) corriqueiras da vida bandida (ou não) que tenho vivido.
E me revoltei também. Me revoltei com as efemeridades, e com o meu pior inimigo: eu mesmo. Me revoltei porque 'eu mesmo' anda muito saidinho por ai, e fala demais, e prega demais, e não vê nada cheio, tudo vazio.
Mas a vida tem dessas, a noite também. E tenho me encontrado muito menos com 'eu mesmo' ultimamente. Geralmente no espelho pela manhã, quando noto que ele anda com olheiras mais profundas, pouco cabelo e sorriso curto. Às vezes ele aparece em fotos minhas de ousado, e toma conta de toda minha publicidade, maldito! E às vezes ele não toma café, e quando quer tomar, toma uma garrafa-térmica inteira. Ele é preguiçoso e não me deixa levantar de manhã cedo pra varrer o quintal, mas ele tá ficando fraco. Eu sinto isso. Vezes ou outra quando a gente se bate num relance de uma luz qualquer, fito ele na sombra. Tá mais curvo, com aspecto de velho, sabe? Daqueles que já anda precisando de uma bengala pra se equilibrar. E eu percebo que ele é bem sozinho. E lida bem com a solidão, porque já não se importa. E é até melhor que o seja assim, porque ele é uma péssima companhia. Tem mania de falar demais, e quase nunca deixa a gente falar. Fico pasmo porque enquanto eu sou tão observador e critico ele teima em abrir a boca num canhão e soltar bombas sem nem ao menos mirar o cabo. E nossa! É inconveniente isso! Só quem já viu, sabe. No fundo eu acredito que ele tem algo de humano, porque percebo no fundo dos olhos (quando a gente se encontra no espelho) que existe ingenuidade, carência, medo, covardia, coisas intrínsecas da natureza humana. Isso me tranquiliza um pouco, mas me dá dó quando penso em matá-lo.
Mas na verdade, tudo é culpa minha. Não soube domá-lo da forma correta. Não soube usá-lo ao meu favor. Fui deixando ele galgar sem cela, rédeas. E olha no que deu!
Mas não posso culpar me, tampouco ele, coitado! Porque é um coitado. Eu e ele. Coitados, num só.
No entanto eu acredito que talvez ele cresça (ou morra/descanse), numa noite de sono profundo. Talvez seria melhor.
Talvez não.