
-
Andamos embreagados em nossos pensamentos por muitos metros sem sequer trocar olhares um para o outro. Eu era seu maior sonho, seu pior pesadelo; a sua parte mais verdadeira e a mais falsa. Eu era simplesmente tudo aquilo que ela negara outrora, e tudo aquilo que ela queria por toda a vida.
Seguimos com os passos ainda tão pesados contra o corpo, o tempo e paramos um diante do outro. O cordeiro e o lobo.
Ela me olhou fixo nos olhos com seus olhos ainda úmidos. Sua paixão e dúvida transbordava daquele olhar tão nu, despido. Eu ainda assim, com medo da sua ausência eterna ou da vida eterna sem a sua presença estava no dilema: deixá-la ir brincar com a vida até que a morte nos separasse, ou simplesmente trazê-la eternamente pros meus braços.
Na minha cabeça cenas passadas passavam como foguetes em câmera lenta. Aquela sexta, o frio, o calor, a música, as vozes. Nós. [...]
Não tinha percebido que assim como os dela, os meus olhos também estavam a ponto de erudir de lágrimas ! Não chorara com tanta sinceridade a muito tempo. Não sabia se chorava de medo (de perdê-la), de alegria (por estar ali ao seu lado) ou por pura melancolia de não ser suficientemente bom para reverter o quadro que pintamos.
Não lembro do nosso curto diálogo, já que, antes disso, como havia dito, não tínhamso trocado sequer uma palavra.
Mas eu me lembro do que sentia, ah ! Se me lembro ! De todos os frios quentes no meu peito os quais nunca havia sentido em toda minha eterna existência. Lembro do tom do 'eu te amo' dito por ela, logo depois que tocou meus lábios ternamente, enquanto eu, parado, assistia tudo aquilo pasmado com o que aquela moça me fazia sentir em tão pouco tempo.
Enquanto seus lábios teimosos tocavam os meus com tanta ternura, não fechei meus olhos, deixei-os abertos pra selar aquele momento tão singular.
Ela virou-se de costas na intenção de continuar seu destino ... Enquanto ia, observava de longe seus passos e seu corpo, sua alma cada vez mais distante da minha;
E era exatamente a hora do meu ataque, que faria dela a sua morte ou sua vida eterna em mim.
Gritei, como no surto pelo seu nome. Ela olhou para trás, como no susto, e ainda com o rosto vermelho, quente, coberto de lágrimas, veio ao meu encontro.
Peguei nas suas mãos tão quentes; olhei nos seus olhos tão amendoados, vermelhos e brilhantes, e disse, como num desabafo: 'eu também te amo'.
Beijei-a freneticamente, a ponto de meus olhos mudarem de cor... desci pelo seu pescoço, e alcancei a sua nuca. Ali mesmo preguei meus dentes suavemente para que não sentisse tantar dor. Suguei-a até o limite da vida ... O seu sangue escorreu pelo meu queixo e espatifou-se em seu seio.
Ela desfaleceu em meus braços, e assim, com pouca consciência, olhei serenamente em seus olhos e lhe fiz uma escolha: morrer consigo mesma, ou viver, eternamente, nos meus braços.
[...]




